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Leishmaniose canina Imprimir E-mail
 LEISHMANIOSE CANINA

1. O que é a Leishmaniose canina

É uma doença crónica causada por um protozoário (Leishmania), que invade órgãos viscerais e pele, provocando lesões.

Como se transmite?

Através da picada de um mosquito flebótomo.


2. Características morfológicas do mosquito:


2-3 mm de tamanho

Coloração ocre-amarelada

Densa pilosidade que recobre todo o corpo, incluindo patas e asa


3. Habitat do mosquito flebótomo:

Biótopos tais como: gretas de muros, estábulos, currais, jardins, sótãos, fendas profundas de terrenos, ruínas, minas, lixeiras, etc…ou seja, locais onde as temperaturas sejam moderadas, com escassa iluminação, humidade relativa elevada e com elevado conteúdo em matéria orgânica de origem animal e vegetal, que serve de alimento ao mosquito.


4. Dieta e alvos preferenciais do mosquito:

- As fêmeas dos flebótomos alternam entre a ingestão dos açucares (plantas e outros insectos – dieta energética) e consumo esporádico de sangue (que desencadeia uma nova postura de ovos)

- Parece que são espécies antropozoófilas, que tendem a alimentar-se com mais facilidade do gado e do cão, devido à sua maior acessibilidade e disponibilidade, do que propriamente do ser humano, sobretudo nas áreas periurbanas e rurais, onde os cães pernoitam no exterior das vivendas.

- Mesmo estando exactamente nas mesmas condições de exposição, o flebótomo parece ter preferência pelo cão em relação ao ser humano.


5. Época do ano mais favorável à sua actividade:

- Mais frequentemente de Maio a Outubro (podendo alargar-se de Março a Dezembro).

- As larvas do 4º estádio costumam entrar em letargia invernal.

- A actividade diária dos flebótomos é crepuscular, inicia-se com o pôr-do-sol e prolonga-se durante as primeiras horas da noite, sempre que a temperatura não desça dos 17-18º C, não chova e o vento esteja calmo.


EPIDEMIOLOGIA

O ciclo biológico da Leishmania tem lugar em dois hospedeiros:

- vertebrado (cão)

- invertebrado (mosquito flebótomo)


VECTOR


RESERVATÓRIO



Flebótomo infectado

Forma flagelada

PROMASTIGOTA

Cão saudável

Forma não flagelada

AMASTIGOTA

Cão infectado


Transformação da forma amastigota em promastigota o tubo digestivo do mosquito

Flebótomo não infectado

Picada


O cão é o principal reservatório do ciclo doméstico causado pela Leishmania, tanto na Costa Mediterrânica como no Brasil e China.

Também existe um ciclo selvático de Leishmaniose nos canídeos silvestres, tais como o lobo e o chacal.

Parece que nos últimos anos se diagnosticou Leishmaniose nos gatos.

De forma muito esporádica, foi detectado o parasita em galinhas, cavalos e lagartos.

Por último, propôs-se o ser humano como reservatório de Leishmaniose. Nos casos em que é portador da co-infecção Leishmania/HIV, tanto pelo uso compartilhado de seringas como através da picada por flebótomos parasitados, depois de se terem alimentado do sangue de outros doentes humanos com Leishmaniose.

Se assim for, estaremos perante uma antropozoonose, sem a participação do cão ou outro vertebrado qualquer, a não ser o humano, no ciclo da doença.

A transmissão da Leishmaniose acontece no momento da picada do flebótomo e apenas por este, uma vez que não está provado que outros artrópodes sejam capazes de actuar como vectores activos.

A transmissão vertical (ou seja, de mãe para filho) não está comprovada, embora existam alguns estudos que sugiram a sua existência, assim como transmissão através de sangue infectado canino.

A infectividade de cães parasitados com Leishmaniose visceral, cutânea ou ambas, é alta, sejam estes assintomáticos ou sintomáticos.

É facto que, factores tais como: estado nutricional do cão, virulência do parasita e capacidade vectorial das espécies e raças de flebótomos, exercem uma importante influência sobre a intensidade de transmissão num dado foco endémico.

Está mesmo demonstrado que um cão doente é capaz de infectar, de forma experimental, espécies de mosquitos flebótomos provenientes de zonas não endémicas.

Estudos experimentais provaram que no segundo mês após a inoculação no cão, este começa a ser infectivo para o mosquito (cerca de 10% dos flebótomos são infectantes). Esta situação permanece sem alteração até que, quatro meses mais tarde, mesmo antes de aparecerem os primeiros sintomas clínicos, a quantidade de mosquitos infectada já supera os 60%...

A Leishmaniose canina tem prevalência elevada na Península Ibérica. Estudos serológicos realizados em zonas endémicas informam que 50-60% dos cães são positivos mas assintomáticos e somente 20% deles manifesta Leishmanias na pele.

Os cães assintomáticos mas que têm parasitas na pele são os mais perigosos, no que diz respeito ao risco epidemiológico, uma vez que é muito difícil a sua detecção.

Parece que 15% dos animais infectados é capaz de recuperar e eliminar os parasitas espontaneamente, sem tendo sido sujeitos a qualquer tipo de tratamento.

Os restantes evoluem na sintomatologia da doença de forma +/- rápida. Daqueles que são tratados com compostos antimoniais, 70% responde clinicamente à terapêutica, se bem que 20% desses, não negativa serologicamente, de forma que muitos podem sofrer reactivações e outros podem mesmo permanecer infectados só que sem sintomas.

Assim, quando se reactiva o processo, o animal (cão) recupera a sua capacidade infectiva sobre o flebótomo, perpetuando o ciclo da leishmaniose.


QUADRO CLÍNICO:

  1. Lesões cutâneas

Localizadas:

  • Lesão cutânea primária produzida pelo vector flebótomo no local de inoculação


  • Aspecto similar à lesão típica da Leishmaniose humana (“Botão do Oriente”)


  • Aparece em zonas desprovidas de pêlo (trufa, pavilhão auricular, lábios, zona glabra do abdómen, etc.)



Generalizadas:
  • Forma queratoseborreica


  • Forma ulcerativa


  • Forma nodular


  • Forma papulo-pustulosa


  • Hiperqueratose nasal e ou plantar


  • Onicogripose (faquirismo)


  • Ulcerações nas uniões muco-cutâneas (lábios, pénis, vulva)



  1. Lesões generalizadas

Sintomas inespecíficos:

  • Magreza, astenia, inapetência

  • Atrofia muscular (sobretudo facial - músculos temporal e masséter)

  • Anemia não regenerativa

  • Linfoadenopatia generalizada ou localizada


Sintomas específicos:

  • Alterações renais (glomerulonefrite)

  • Alterações hepáticas (hepatite granulomatosa)

  • Alterações digestivas (colite ulcerativa granulomatosa)

  • Lesões oculares (blefaroconjuntivite, uveíte, queratite)

  • Poliartrite

  • Hemorragias (epistaxis, hematúria, melena)



DIAGNÓSTICO:

  • Clínico-epidemiológico: sinais clínicos, habitat, tempo de exposição ao mosquito, zona geográfica, procedência.

  • Laboratorial:


Diagnóstico parasitológico

Imunodiagnóstico

Punção de gânglio linfático

Prova de hipersensibilidade retardada ou teste de Montenegro (resposta celular)

Punção de medula óssea

Imunofluorescência indirecta (resposta humoral)

Biopsia cutânea

Teste de aglutinação directa (DAT)

PCR de biopsia de pele ou punção de medula óssea ou sangue periférico

Enzimoimunoensaio (ELISA)

dot-ELISA

Western blot

Imunocromatografia (dipstick)


Um resultado positivo com qualquer destas técnicas, juntamente com quadro clínico compatível, , é suficiente para estabelecer diagnóstico definitivo.

No entanto, se o resultado é duvidoso, deverá realizar-se várias determinações com intervalo de 30 a 45 dias, utilizando diferentes técnicas.


  • Provas complementares:

- Proteinograma

- Hemograma

- Perfil bioquímico hepatorenal

- Análise de urina (quociente proteína/creatinina)



TERAPÊUTICA EFICAZ
:

Leishmaniostático: Alopurinol

Leishmanicida:

- Antimoniais

- Miltefosina

- Anfotericina C

- Outros


CONTROLO:

  • Diagnóstico precoce e tratamento dos cães infectados

  • Sacrifício (abate) dos cães seropositivos em colectividades e canis

  • Tratamento dos cães com produtos repelentes para reduzir o nº de picadas pelos flebótomos

  • Utilização de insecticidas dirigidos aos flebótomos domésticos e peridomésticos ao redor das propriedades ou locais onde os cães pernoitam

  • Tratamento de casos humanos

  • Imunoprofilaxia: apesar de estarem a ser testadas e estudados vários tipos de vacinas, ainda não existe neste momento nenhuma que seja efectiva.

Apenas no Brasil está a ser usada uma vacina contra a Leishmaniose (Leishmune®) mas que tem como grande inconveniente efeitos cutâneos adversos, febre e astenia.




Patrícia Azevedo

Médica Veterinária




 
   
 
 
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